Ana Paula Oliveira, A bandeirinha

29 07 2008

Nota: demorou, e muito, mas está aqui a entrevista que fiz com a Ana Paula Oliveira.

Um ano após posar nua para a revista “Playboy”, a bandeirinha mais famosa do Brasil abre o jogo. Em entrevista exclusiva que fiz para o “Agora São Paulo”, a auxiliar de arbitragem Ana Paula Oliveira conta como foi o período longe dos gramados, desde as mágoas com a CBF até o retorno ao apito.
Em um novo momento na carreia, a bandeira falou ainda sobre os seus projetos pessoais e profissionais e, apesar de não ter o costume de falar sobre os seus relacionamentos, contou como está o coração. “Solteira sim, sozinha… Nunca [risos]. Não estou namorando, estou só ficando”, afirmou Ana Paula, que não fugiu das perguntas até quando questionada sobre a sua sexualidade.
Recuperada da lesão que a fez perder o escudo da Fifa, a auxiliar conta que chegou a pensar em desistir da arbitragem, mas o sonho de participar de uma Copa falou mais alto.

Por que ficou afastada da arbitragem e como foi este tempo?
Ana Paula Oliveira _ Na verdade, parei de atuar pela CBF depois do teste da Fifa [em 20.set.07], que mexeu um pouco comigo emocionalmente. Eu até poderia ter me recuperado, ter tratado da minha perna [estava com uma inflamação óssea no tornozelo] e conseguir retornar ao quadro em meados de novembro [2007], mas fiquei muito chateada, abri mão e foquei 2008.

Essa chateação… A mágoa que você tem é com alguém da CBF?
Ana Paula _ A única coisa que eu lamentei na época e que me deixou muito triste foi que, como arbitra Fifa, eu não tinha obrigação de correr porque eu estava machucada. Eu apresentei os documentos, comprovando que eu estava lesionada, e, mesmo assim, fui obrigada a correr. Isso me deixou triste. Agora é um outro momento. Graças a Deus eu provei para todo mundo que, em condições, faço a prova, tanto é que fiz. Não estou mais lesionada. Acredito que em 2009 eu volto com tudo, começar janeiro completando o teste masculino e brigando para retornar ao quadro nacional e ao quadro da Fifa. Fiz o teste da Fifa e, para o feminino, fui aprovada, mas não sei se vou conseguir voltar ao quadro [ela precisa ser indicada pela CBF]. No ano que vem as chances são maiores, porque eu vou fazer a Série A do Brasileiro.

E como foi o retorno?
Ana Paulo _ Este ano eu fiz o teste, agora estou pela CBF, só que dentro das condições para atuar no feminino. Mas eu voltei mesmo no Paulista, onde eu participei de oito jogos. Dos oito, o principal jogo foi a segunda partida da semifinal entre Guaratinguetá e Ponte Preta. Foi um grande jogo, foi uma semifinal, que é importante, marca a carreira. Para quem tinha ficado sete meses longe dos gramados, voltar e conseguir chegar a uma semifinal é muito gratificante. Aí eu não parei mais de treinar. Meu objetivo agora é atingir a meta masculina, mas continuo atuando nas competições organizadas pela Federação paulista, como a segunda divisão do Paulista.

E este ano, não dá pra voltar à Série A do Brasileiro?
Ana Paula _ Este ano, acho que não, até porque minha meta pessoal eu já atingi: que era o teste físico para o padrão nacional e padrão internacional feminino. Se me derem oportunidade para correr no final de agosto, talvez eu participe, mas já tentando o tempo masculino. Não sei se vou conseguir, mas estou treinando para isso. Mas estou trabalhando mesmo para 2009.

Neste período longe dos campos, você recebeu algum apoio da CBF e/ou da FPF?
Ana Paula _ Da CBF não, até porque eu estava afastada. Mas eu tenho de agradecer ao Marco Polo Del Nero [presidente da FPF] e ao coronel Marinho [chefe da comissão de arbitragem da FPF], que me deram muita força no momento no qual estava com o emocional abalado. Perder um escudo da Fifa parece que não, mas é muito doloroso. E eles me deram oportunidade para voltar. Eu estava querendo largar, e o presidente me deu um esporro. Eu estava desmotivada, estava pensando em desistir da carreira. Mas ele disse que, se eu realmente amo o que eu faço, era a hora de mostrar esse amor. Devo muito a ele e ao coronel Marinho, que me deu também um puxão de orelha.

Assinar o contrato com a “Playboy” logo depois do jogo contra o Botafogo [em 23.mai.2007], onde a sua atuação foi muito contestada pela diretoria do time carioca, foi coincidência?
Ana Paula _ As pessoas acham que foi por causa do jogo do Botafogo, mas não foi. Foi pura coincidência. Logo depois do jogo, viajei para a Bahia para participar de um congresso e fazer um evento. E lá eu fui assaltada, foi um dia antes do meu aniversário. A revista já tinha feito a oferta, mas eu tinha recusado. Eu fiz tantos jogos e nenhum fez eu mudar de decisão. Mas o assalto mudou. Eu fui abordada por quatro homens. Eu a minha assessora fomos levadas para um lugar muito escuro, no meio do nada. Eu achei que ia morrer ou ser violentada. Mas isso não aconteceu, graças a Deus. Aí, depois disso, eu voltei para casa e disse para os meus pais: “Se Deus me livrou deste acontecimento, eu vou melhorar a vida de vocês”. E por isso fiz a revista. Não tem nada a ver com o Botafogo nem com a CBF. Nunca tive problema de relacionamento. Isso foi especulação, balela. Tomei a decisão por causa da minha família e por causa do que aconteceu comigo. Eu achei que fosse morrer.

Ficou com algum receio na hora de tirar a roupa para fazer as fotos?
Ana Paula _ No dia das fotos, assim que terminei a maquiagem e tirei o roupão, olhei para a promotora da revista e disse: “Acho que não quero mais fazer as fotos. Tem como mudar?” Mas ela respondeu: “Lembre-se que você assinou um contrato e a multa rescisória é alta. Acho melhor você tomar uma água e fazer as fotos.” Mas aí aconteceu, fiquei muito feliz e deu tudo certo.

O que fez com o dinheiro da revista?
Ana Paula _ Dei uma casa paras os meus pais e ajudei a minha irmã com a faculdade dela. Realizei um sonho do meu irmão de ter um carro zero. Consegui quitar a minha residência, que estava financiada. Foi uma boa proposta, deu para fazer tudo dentro do possível. Ter uma casa, um carro. Foi muito legal, deu para erguer a família.

Em qual você lucrou mais: revista, eventos ou arbitragem?
Ana Paula _ Já ganhava dinheiro com o futebol. Não só como auxiliar, mas eu já fazia eventos e palestras. O futebol me deu muita coisa e ainda vai me dar. E também sempre fui uma pessoa à frente. Mas a revista me proporcionou uma notoriedade maior e uma procura maior. A revista me deu uma condição maior do que eu já havia conquistado na arbitragem. Mas, ao mesmo tempo em que eu ganhei com a revista, eu perdi muito também. Algumas empresas que me contratavam, deixaram de me contratar, mas muitas outras passaram a me contratar depois da revista.

O que mudou depois da revista? Trocou de carro, freqüenta outros lugares?
Ana Paula _ Eu gosto de carro. Então melhorou um pouco. Mas eu continuo com o Palio. Continuo com o “Paliozinho”, mas eu estou com uma Ecosport também. Mas o Palio está aí, firme e forte. Continuo saindo com os mesmo amigos. Vamos ao mesmos lugares. Nada mudou. Acho que os amigos são sempre amigos, o momento não importa.

Você sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher e estar no futebol, que é um esporte dominado por homens?
Ana Paula _ Sofri preconceito no começo da carreira. Antes do jogo do Botafogo, fazia um tempo que eu não sofria esse tipo de discriminação. O que o dirigente do Botafogo [Carlos Augusto Montenegro] fez foi absurdo. Ele ofendeu a todas as mulheres do Brasil, em especial a esposa dele. Estava tudo tranqüilo, foi uma surpresa a reação dele. Seria aceitável se ele me criticasse como profissional, mas ele exagerou. No começo da carreira, em 98, fui discriminada não só por jogadores, mas por técnicos, árbitros, com tudo. Sofremos preconceito em todos os sentidos.

A relação com os jogadores mudou depois da revista?
Ana Paula _ O que aconteceu depois da revista, no máximo, foi jogador elogiar o trabalho. Mas é impressionante o respeito que os jogadores tiveram e têm comigo. Até porque eu os respeito muito também. Em onze anos de carreira, eu nunca ofendi um atleta.

E já recebeu alguma cantada dentro de campo?
Ana Paula _ Acontece em jogos de festa. Aí é normal porque não é um jogo oficial. Os jogadores se soltam mais e alguns fazem isso. O Denílson fazer parte desse grupo (risos). Uma vez recebi uma cantada dentro de campo. Foi em um jogo no Pacaembu. Um jogador, antes de bater eu escanteio, disse que morávamos na mesma região e pediu meu telefone. Mas eu disse pra ele: “Vamos fazer assim: limite-se a bater o escanteio e fica tudo certo”. Depois ele me pediu desculpas, dizendo que exagerou. O máximo que aconteceu foi isso.

Como você lida com o público, os fãs?
Ana Paula _ A minha vida continua do mesmo jeito. Dou bastante autógrafo, o pessoal tem um carinho. E eu me dou bem com isso, acho que combino bem com isso. Não tenho nenhum tipo de problema. Vou ter uma coluna no meu site, que vai receber uma cara nova, a partir do mês que vem. Vou falar diretamente com público, falar o que eu senti em alguns momentos da minha vida, como quando deixei o quadro da Fifa.

Entrou em alguma furada ou cantada em algum evento?
Ana Paula _ Uma vez aconteceu. O rapaz pagou a metade do combinado. Fiz o evento e tal, mas ele não me pagou o resto. Mas nunca recebi nenhuma cantada. Isso porque sou muito profissional. Não dou essa abertura.

Por que você acha que se destaca entre as outras mulheres da arbitragem?
Ana Paula _ A partir do momento que eu faço o meu trabalho bem feito, passo a ser notícia. Se as coisas não fossem assim, todas as arbitras do Brasil seriam notícia. Meu diferencial é o meu trabalho, os meus acertos, minha personalidade e a minha transparência.

E como anda a Ana Paula fora de campo, está namorando?
Ana Paula _ Estou solteira, mas não estou sozinha. Estou com alguém há três meses. Não sei se isso é namoro, acho que estou ficando (risos). Mas eu não vou abrir a minha vida pessoal e apresentar o meu namorado.

Por você não falar muito da sua vida pessoal, algumas pessoas questionaram a sua opção sexual. Isso te deixou chateada?
Ana Paula _ Não. Eu sou muito tranqüila em relação a isso. Isso não me incomoda, eu sei o que eu sou, sou muito eu.

Mas você é homossexual?
Ana Paula _ Se eu falar que não, vão dizer que eu estou preocupada em negar. E toda mulher que está envolvida no mundo do futebol está vinculada a isso. Eu já provei que a mulher pode usar salto alto e ser vaidosa dentro do futebol. Mas se mesmo assim ficam procurando pêlo em ovo, quem sou eu para querer mudar. Como todo mundo, eu tenho amigos que são homossexuais e não vejo problema algum. Quando freqüentei o meio artístico, vi coisas que me deixaram de queixo caído.

Mas você é ou não?
Ana Paula _ Não.

Se fosse, você assumiria numa boa?
Ana Paula _ Não sei. Uma vez fui questionada se um atleta no meio do futebol deveria, e eu disse que em nenhum momento ele deveria assumir. E acho que isso também serve para mim também. Porque isso expõe muito você. E nossa população não está preparada. Esse jogador pode ser super talentoso, ser um craque, e as pessoas se prenderem ao fato de ele ser homossexual, não valorizarem o seu trabalho. Acho que as pessoas precisam se preservar. Para a celebridade da TV, acho que é muito mais fácil. Mas para um do futebol é muito mais difícil, o que eu acho uma besteira. Acho que a pessoa está aí para ser feliz, não importa como.

 Fora do futebol, quais são seus sonhos?
Ana Paula _ Sou louca para ser mãe. O que me atrapalha hoje para ter um relacionamento estável e construir uma família é essa vida louca de viagens, de treinamento. A gente quase não tem uma vida social. Não dá para sair, ir dançar. Porque os árbitros são atletas também. Pretendo começar minha carreira de jornalista já no ano que vem, quem sabe ter um programa ou participar de um programa de debate. Para eu ir para o jornalismo, eu tenho que ter formação, para não dizerem que sou oportunista. E acho que dá para conciliar a arbitragem com o programa. E eu posso falar de futebol também, não só sobre arbitragem. Estou com alguns outros projetos grandes na minha vida pessoal. Acho que, para o ano que vem, vou lançar um livro.

E profissionalmente?
Ana Paula _ Já realizei o sonho de ir aos Jogos Olímpicos. Em 2004, inclusive, eu e a Silvia Regina recebemos a medalha de ouro nos Jogos de Atenas. Os árbitros que chegam à final da modalidade também são premiados. Já me sinto realizada em Olimpíada, mas gostaria de ir para mais uma. Mas Copa do Mundo continua sendo o meu maior sonho. Ainda tenho 15 anos de carreira. Eu acho que ainda dá.

Pensa em participar da Copa de 2014?
Ana Paula _ Acho que é um sonho possível de ser realizado. Eu vou trabalhar para 2014.

Faria tudo de novo?
Ana Paula _ Sim. Foi tudo positivo. Eu faria tudo de novo. Acho que quebrei dois tabus. Primeiro, foi entrar na arbitragem. Segundo, fazer a revista, voltar ao futebol e ser respeitada. Muitos falaram que eu não voltaria. Quando você tem uma história, ninguém pode tirar isso de você. Acho que 2008 foi um recomeço. Eu comecei do zero. Estou reescrevendo uma nova história. A vantagem que tenho é que já passei por ela e não vou dar tantas cabeçadas. É só seguir o caminho. E acho que vou voltar ao quadro da Fifa e voltar a brigar por uma vaga na Copa, com certeza. Eu acredito nisso.

Posaria nua de novo?
Ana Paula _ Hoje não faria. Mas o amanhã a Deus pertence. Se eu fizer, vai ser para cuidar de mim. Porque o primeiro foi para cuidar da família. Mas a revista precisa vir atrás. E vai depender do momento também que eu estiver atravessando. Não é uma coisa que eu penso para hoje.

O que achou da entrevista? Comente e dê a sua nota.